domingo, 2 de outubro de 2011 1 comentários

Retrospecto























Ônibus parado na via mornacenta, suja,
poeirenta e deserta. Gestos dolorosos,
impacientes, palavras de acontecer
anímico.

Sol poente, descolorido,
um zimbório azul, enevoado,
a escalar horizontes ensanguentados e distantes.
Crepúsculos diáfanos, esparsas nuvens de chuva
uma lufada de conforto no rosto quase febril
.
Fico em meditativo silêncio. Um dia desses, qualquer um,
desdobrarei meu último esforço,
e sequer saberei que será o derradeiro.

A vida é um ato de iniquidade da Natureza-Mãe.
Sinto o rosto crestado, os olhos como precipícios
à beira das sobrancelhas
. Tudo que emana
das mulheres que passam por mim tem um tom burlesco.
Mesmo assim sou vitimado por antigo fascínio.
Vem a ternura, nascida da orla do cérebro,
pendendo no debrum do coração. Coisas de temperamento.
Não mais penso como cidadão de algum lugar,
de alguma família, de alguma origem. Sou o que?
Onde meu avatar?

O vazio me afeta de modo devastador. O vazio é uma demência.
Também demência são os olhares aflitos e a angústia,
que não obstante estarem no passado,
ainda buscam a hora da partida.
E a boca que não se entrega agora, também não falará amanhã,
porque todas as palavras, úteis ou inúteis,
voarão, elétricas, mas imantadas,
para o buraco negro e vazio do esquecimento.

Desde que a abandonei, querida, tornei-me amaldiçoado
por demônios e deuses.
Ninguém renega sua ética e sai sem pagar o que deve.
Muda-se de aparência, de roupa e condição ambulante,
mas não se consegue evitar o recuo, o castigo ancestral
.
A desolação já firmou suas garras sobre mim há muito tempo.
E, subjugado, não mais me reconheço,
convivendo dentro de mim como um estranho.

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Temor


Nada rondando o nada.
Na década derradeira, sendo tudo muito lento,
a velhice voejando, proliferando e disseminando
pelo corpo combalido toda sorte de mazelas,
os mistérios do entremeio crescem, a mente entorpece
dentro da desordem funda e celular,
que viceja entre a floração e o desfolhar...
Sobre a vista e sob os pés,
caramanchões derramam buganvílias cadentes
nas anfractuosidades das amuradas envelhecidas
recobertas de lodo e manchas musguentas,
flores pejadas de cores, transparentes linfas
entrelaçadas, cor-de-rosa, rosa-cor, rosa-roxo

vazando copiosas vagas de tristeza.
Aos ouvidos desatentos desce a sonoridade plangente
de gorjeios e trinados
toques de asas ruflando
nos campanários altos e vetustos
incrustados no entardecer melancólico da existência.
As estreitas vielas e seus barrocais
derramando desolação nas almas de partida marcada.
O espírito se debruça sob os respingos das chuvas
nostálgicas que caem nesses outeiros,
nas ladeiras enseixadas.
Tudo é pranto pelos sentimentos doidos e libertários
que se esvaneceram. Tudo desce fundo, cada vez mais fundo.
Ali, no ponto focal
, gravitam almas com saudades permanentes
e duradouras. Tudo quimera, nada mais que sonho e banalidade.
Nem trabalho, nem farnel. Somente inutilidades.
Apenas os mortos estão a salvo, agora, na sua realidade
inerte e vazia, de vácuo entre um tempo passado e um tempo presente.
Se existe um Deus, a que me diz respeito sua existência?
Talvez, se o conhecesse,
até chegasse a amá-lo,
deixando mesmo de temê-lo.
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Extinção


Dependuradas cangas, encarquilhadas cargas,
afinadas sapatilhas,
telhas vãs, tetos de flandres
sem forro, poeira pura, monjolos,
tábuas largas e cravos
ressoantes, lamparinas, velhos teares
pau-a-pique, rústicas superfícies
e barro trançado em cipó fino, tendas estorricadas.
Achas de aroeira, esteiras de palha, cipós das pirambeiras,
cancelas giratórias, cataventos, moendas rangedoras.
(Nenhum de nós nasceu em manjedoura. E nunca chega o ansiado tempo
de descarte e de deslinde!)
(Nossa mãe de cócoras. Nenhuma abertura para a glória. Apenas o nascer.)
Sulcos de arado,
florestais os núcleos
para machados,
foices, cordas
e terçados.
Ando. Não ando, erro
pelas ermidas
deste tempo, nas várzeas
dos caminhos seculares.
Vagueio e danço. Batuques
carimbós e cateretês,
capoeira, maculelês,
maracatu e reisado.
Nas implicações mágicas dessa era
uma vertigem de ternura;
no espaço bidimensional
argonautas de uma nova ética,
oráculos do emergencial
.
Nem dogmatismo, nem esquematismo - um único golpe decepando séculos.
Logo seremos apenas sepulturas
envergonhadas do deserto
de si mesmas.
Parakanãs, jurunas e coxodoás;
caiabis e pacaiás,
cintas largas, nhambiquaras
craôs, tambés, crixás, gês
caiapós-merencórios mereuás.
Caminhamos penosamente para a morte
sob o "rush
" dos cometas
e o rancho escuro das estrelas
de movimentos fibrilares.
Embaixo, no chão verde marrom
rasgado de faixas asfálticas
nem um só índio vê o horizonte.
O que fazer diante de um índio
que morre?
(Esses infortúnios, com o decorrer dos dias, interessam-me cada vez
menos).
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Entrega

(Inútil enleio.)
Devolvo a Deus a alma inocente
de milênios, caída em delusão
.
Campânula de amargura,
sem beleza,
ofertório de solidão,
sem tristeza,
epifania do desespero
- crucificação -
- pão e vinho -
- meu sangue -
hóstia de mim mesmo.
- Ah, os devaneios de um burguês acomodado,
que nem é índio ...
(Quando alguém sobe, toda a Humanidade se eleva.
Quando alguém desce, toda a Humanidade tomba!)
Estamos vivendo em nossa sepultura.
Às vezes explodimos em desvairada alegria. Às vezes ...
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Indestinado


Sarabandas sarapintadas,
aqualoucos, surfistas
,
coquettes, hippies, freaks, cocotas e beatniks,
chacretes e maluquetes...
Coqueterias fora de moda
bufonarias tolas.
Um turbilhão no vazio,
m
assificação,
amplitude de querer
ascetismo e estranhos costumes.
Contemplação surrealista,
muito cômodo, m
uito prático.
Quando era garoto, queria ser guerreiro,
pois a guerra era ingênua.
Não doía essa pedra de dureza
e crueza
intelectual.
Agora sou escravo,
ainda sou escravo.
É o que o mundo reza!
Vidas secas, sem pegadas, um velho coração de menino,
indestinado.
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Enigma


Debaixo do dossel
a tarima;
sobre o tardoz
da porta,
a taramela larga, mal pregada,
mas firme como os portais bem fincados.
As selas estão suspensas nos mourões da entrada.
No canto, um paneiro machucado.
Da janela se avista um comprido quarador
de pouco uso.
É aqui que soçobro. Resta-me a retitude.
Não há um só papiro laudativo,                                                                       -'
e nem uma única panóplia índia.
Não ficou vestígio histórico.
Num ponto da vastidão botei minha cabana.
Entrou dinheiro
.e madeirama na empreitada,
para a cumeeira da cocheira e postigos da seringa
de aroeira. Pau-a-pique no paiol. Mofo e azedo nos pauis.
Meias-verdades, inconfidências, modos cambembes,
um pouco lerdo, meio tardo, talvez leso,
vagueio ao léo das neblinas, na migração das borboletas
companheiras fugazes de cada hora passadia,
e contemplo os restos da tiguera.
- "Olhe, não gosto, nem admito confianças comigo."
(Antitético e antítipo - a antítese se extrapo
la).
Um riacho estendido pelo chão pedregoso
de fragas e fragores dissonantes,
com curvas suaves, ternas como o dedilhar de uma criança
nos seios da mãe carinhosa.
Mas leite não brota; leite jorra, sabe-se lá de onde;
sabe-se lá qual o momento em que se forma.
Ao longo dessas planícies solitárias, nessas grotas,
o frescor de suas águas a correr, ora semi-turvas
ora em tálamos cristalinos,
luzindo com o reflexo de luzeiros catárticos,
intermitentes. Carecemos da noção plena de uma existência
coletiva, provada por concepção natura
l.
Natural- eis a palavra chave! Eis a chave das palavras!
As palavras são os mais importantes enigmas
dessa solidão emanente.
 
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