domingo, 2 de outubro de 2011

Limitação


Às vezes pareço a pestilência de um rio envenenado
que não corre mais, coberto de impurezas,
que se arrasta, espesso e pesado e que desconhece seus limites.
(Conheci coisas de Sartre, Van Gogh, Camus e Nova York).
Fui caiapó dos horrores. Tenho uma realidade íntima,
exclusiva. Não tenho medo do interno, nem pretensões sobre o céu.         I
Sou um ser indolente,
traiçoeiro e perigoso, nefasto e sibarita,
pantagruélico, consumista - cripto e ingênuo.
Sou caiapó dos anos noventa, um senhor sem excelências,
sem fortes odores, ressumo a menta e tenho noção de mortalidade.
(Aprecio lavanda e emanações florais).
E cada dia que se consome
se perde em chamas de isqueiro, bomba de gasolina,
garantia fiduciária
, clips laminados, cotonetes
relógio de ponto, mictório público, lenços de papel,
detalhes mil, quinquilharias, duas taras e uma mania
.
No fundo não sou passional, cético ou xiita.
Vez ou outra li algo de Barthes, nada, quase nada entendi,
provando bom champagne, degustando vinhos e amêndoas,
em mesas redondas e triviais.
Não faço mal nenhum, e a minha essência quase não aparece.
Não mais devoro inimigos e não ataco ao pôr-do-sol.
Agora, na partilha dos despojos,
na confissão dos erros, na recusa da justiça,
sob o domínio das leis pétreas, rígidas e fatais,
devoro minha própria vontade, renego minhas virtudes
e vou me consumindo em outras banalidades.

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