domingo, 2 de outubro de 2011

Fluir


Tudo que flui
e cobre o descambar da aurora
e o que reflui
e descobre o interlúdio da idade
me fará pedir desculpas por estar vivo.
De pé - em posição etrusca -
aplaudirei as obras miríficas
dos donos da vida,
senhores do mundo
e abjurarei minhas crenças aos ídolos
de barro, ouro e cassemira.
Se me mandarem juntar-me aos cães,                                         
ladrarei. Viverei, também meu sonambulismo de fascinação metafisico.
E explicitarei os meus defeitos.
E se me mandarem viver junto de lobos,
uivarei. E se preciso, esconder-me-ei como caramujo na concha.
Serei bobo da corte,
mágico de salão,
serei sozinho,
palhaço de picadeiro,
sparring do ringue a levar socos defensáveis,
e tombar nocauteado
para fazer felizes a todos,
sábios, tolos e mais-ou-menos.
Conduzirei meu filho ao deserto
e o sacrificarei
com faca de pedra
para perpetuar o ritual dos obedientes.
(Tudo é Deus e Deus é tudo!)
Rasgarei minhas veias enfraquecidas
com lâminas quaisquer,
e com meu sangue derramado
apagarei a poeira
que meus passos levantarem.
Não se trata de vencer, nem de perder,
pois nada é tão inútil quanto a vitória
ou a derrota, mas de viver,
vencendo a mim mesmo!

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