domingo, 2 de outubro de 2011

Contagem

Ah! O tempo... os véus flutuantes, enevoados,
misteriosos pedaços da infância perdida...
Sonhos turvos e entressonhos,
povoados de elos quebrados.
A velhice intolerada e o jugo do torpor
a se opor à vontade positiva da mente
angustiada pela impossibilidade de fazer
.
O ontem demorou séculos mal contados e impressentidos
para atingir o momento presente,
tamanho o sofrimento.
Verti sangue das madrugadas,
solitário na urna de mim mesmo,
sufocado pelas próprias lágrimas
diante da perda e da realidade
feita do "jamais-encontro" com quem se foi.
Derramei fel, instiguei demônios,
espalhei rajadas de brasas e rajas de fogo,
lembrando-me do sorriso de escárnio
,
do olhar de provocante dúvida,
a boca num rictus desesperado.
Nestes momento de vazio indevassável,
de um agora acabado, em desperdício,
não vislumbro utilidade nenhuma para o que sou,
seja uma pequena cauda do lento futuro
ou apenas argamassa a mais para o nada.
Vivi ao meio das vulnerabilidades mil
do mundo embrutecido na massa de gritos e silêncios.
Vou morrer sem saber direito o que sei
e ainda procurando conhecer o que não sei.
Essa é a coroa comum de todas as lutas travadas
e pertencente a todos os que não encontraram firmeza
sob os pés e submergiram para não mais voltar à tona.
É terrível, mas todos os homens
têm de passar pela incomportável dor
da própria temporalidade.

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