domingo, 2 de outubro de 2011

Caiapó


Toda estrada é o caminho que a solidão percorre
na busca e no embalo de outras solitudes
que se oferecem.
Aqui, a chuva chega como incêndio
crepitante - e aqui eu não morrerei jamais!
Revivendo os cheiros álacres da infância,
eu não vivo da terra
e não trabalho o solo com ciência.
Aqui, os amplos laranjais
aro matizam o ar com seu denso
odor de criação.
Os 'campos de soja, frágil planta
de um verde fraco,
se mesclam aos cafezais verde-escuros.
Os touros encurralados
nos bois mansos
escudados.
Quando a lua solitária,
inocente criança do espaço,
entra pelas janelas toscas
destas casas rústicas,
eu abro o seu ventre macio e me arrebato
no seu útero de lava.
("E venha a nós o Vosso Reino
assim na Terra
como no Céu.") Jesus é uma ausência imortal!
Aqui, a caminhada reta
para a vida simples
de um índio
cansado de ser branco
e de um branco
sem coragem p'ra ser índio.
Aqui, morada de ternura e do trabalho
intenso, a rega das hortas
a lambada do sol
e a lombada do campo
nos arraiais do sem-fim.
Aqui, os primeiros dias de uma nova vida
sem as coleiras seculares
que me prenderam ao pescoço.
Aqui, nunca servirei e jamais serei servido!
Serei parte integrante desta terra
destes bichos e dos sentimentos circundantes,
que você derrama sobre mim.
Aqui, no meu primeiro olhar pleno em todos os sentidos,
receberei as bênçãos do Senhor
e aceitarei o seu brilho de estrela.
Tudo ficou para trás - pontes destruídas, cidadelas arrombadas -
e só restam as palavras molhadas de sol
que ouço de sua boca
e de seu interior.
Mais chuva, mais arco-íris,
os lábios frescos
entreabertos,
os dentes brancos como giz.
Não são mais o império do infortúnio,
nem o automatismo
da vida de antanho.
Nenhum ato final de desespero,
apenas o embalo dessa afeição
sem precipícios.

0 comentários:

Postar um comentário

 
;