domingo, 2 de outubro de 2011

Inocente


Hoje, vejo a terra povoada
por uma gente abúlica,
perigosa e anárquica
e a selva, não densa e verde, ainda tem restos de beleza,
mas de complexo vazio e labiríntico descaminho.
E, se o axioma fixa que ninguém é inocente
mesmo assim declaro que não tenho mácula,
que sou decente e puro
produto do sangue que jorrou pelas pedras
de Jerusalém e que se derramou no Gólgota.
Não há uma culpa definida sobre Pilatos
e Judas, nem pela sanha de Herodes.
As lendas várias se misturam
às fantasias mais áridas.
Não entendo se as matanças são necessárias,
por mim acho que não são
,
e nesse sentimento de piedade pela vida
de povos, indivíduos
, animais e plantas,
eu, caiapó, já me considero ainda mais inocente.
(A inocência é gradativa)
.
Nasci na terra, em absoluto estágio de isenção
e sinto-me anterior às histórias daqueles tempos.
Impoluto, mesmo assim tenho ruaiãna.
Apesar de tudo, eu, às vezes mato! Mato como um tumbeiro.
O desconsolo governa minha vida
e a represália comanda meus gestos.
 Por isto, mesmo piedoso e puro, às vezes eu mato!
Sou um muzungo! Suprimir é parte de minha natureza.
Sou caiapó
, sou a aurora da raça
e, como um personagem de Ésquilo
perdi o controle de minha vida.

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