domingo, 2 de outubro de 2011

Lar


A verdade e o bem hão de ressurgir um dia!
De cima das montanhas
ao árdego hálito da ventania
contemplava a vastidão cinzenta
do horizonte
tocado pelas nuvens
acortinadas,
do imponderável.
O domingo vazio foi assassinado,
ao cair do sol - sem punhal e sem fundanga -
pelo tédio só e pelo consumo
ao sabor das leis,
ao gosto dos reis,
nas vontades da lei
nas cidades do rei.
Acoitada pelo inverno, no alto da grupiara,
a casa nos abriga
na boa costura e alvenaria.
Longe de todos, sem traços de nada e de ninguém.
Corações limpos e juntos. Tudo enigmático.
À janela, o vento é um monstro enlouquecido,
forçando as entradas, as frestas e as varetas.
Dentro da tenda, o cerco do calor
o cirandar das rosas
despetaladas para sempre.
No fogão as brasas intumescem a chama,
a lenha crepita e chia e o sentimento acalenta
os corpos
.
Uma criança entretida em seus brinquedos
sobre a palha.
Nem quadros nas paredes, reposteiros ou bibelôs nas prateleiras.
Apenas a pele e o barro.
Encolhido em sua peluda extensão
um pequeno cão.
(O cão é apenas mais um dos experimentos da Natureza. E que não deu
certo).
Testemunha do idílio, o vento dormita seus sons imutáveis.
Carnes na mesa, um bule fumacento,
cobertores dobrados no canto vazio.
Recintos em silêncio.
Um sorriso entreaberto, guardando um raio de sol.
Lá fora as matilhas uivam.
Dentro o reinado da paz, o aconchego.
- Nem nosso princípio, nem nosso fim.
Não importa que o mundo se desfaça em água
e as pessoas se degenerem em monstros.
O desespero sobrenadou nas águas
verdes e sujas dos diques desses olhos.
Somente algumas mulheres poderiam salvar
as horas urgentes dessa espera infinda.
As esperanças estão enroladas em si mesmas
como as fraldas de uma bandeira
que aguarda a hora do desfile.
Todas as manhãs meus passos se cruzam
com os passos daquelas moças singulares
de lábios macios e quadris angulares,
e nunca trocamos sequer um olhar.
Quando passa o primeiro ônibus
carregando gente sonolenta, moída e roída,
para os desgastes da vida burguesa,
eu desperto, sempre assustado.
E retorno do mundo de sonhos
para encontrar a aurora monolítica
dos meus sonhos cotidianos.

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