domingo, 2 de outubro de 2011

Reivindicação


Todos estavam à espera de alguém
que da fé elaborasse obras
sem o nosso suor e nosso óbulo.
E que se crucificasse logo após
para nos remir
e reunir.
A evolução é a lei
do homem
e a lei do homem
é a lei do mundo.
A vida é esforço incessante, gostaríamos que isto mudasse.
Fomos administrados sob o ribombar dos trovões
,
e os bombardeios dos relâmpagos,
os raios caindo sem direção,
caindo onde cair
caindo onde cair.
Não há solidão maior que a dos trovões
gerados no abismo invertido dos fragores
de aladas fagulhas solitárias.
O sonho todo de um século está falido
e só resta o esforço superado
nas realizações da rotina
plasmada aos planos do futuro.
Precisamos de palanques para as estrelas,
planctons para os peixes,
passarelas para as almas dos perdidos
e ribanceiras para os cadáveres
dos vencidos.
E concreto por cima, palha por baixo, terra de lado
ajuntada com garras afiadas.
E vivemos a dor nossa de cada dia
sem pão
de qualquer gênero.
E a noite nossa de cada noite,
sem lua
.
Aqui, todos nós somos ordeiros cidadãos
conspícuos patriotas
homens puros
laboriosos artesãos
da tecnicidade
e do progresso
contrabalançado e reprogramado.
Na virada da esquina
o imóvel monstro de vidro,
com esquadrias frias de aço
e azulejos gelatinosos,
onde as borboletas não pousam
e os gansos não patinam
.
Um computador desta geração
ficaria adequado
no contorno do salão.
(Por que tudo se torna vazio?)
No centro daquela praça
sem guerra
um destino fixo de cristal
para cada peixe em seu aquário.
Nesta rua inerme,
sem placa e sem meio-fio,
uma guitarra dourada
ligada na tomada elétrica
baquelite, fox-trote, plangente
desafio.
Céus! Sesquimilênios para conhecer uma alma!

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