Meus mortos estão insepultos dentro de mim
e eu não tenho dons para incorporá-los,
e eu não tenho dons para incorporá-los,
nem capacidade sequer de entendê-los
com minha consciência saharizada.
E nem consigo sepultá-los de vez.
Alguém me pergunta se choverá amanhã,
de manhã. O céu noturno nada informa.
Então não sei como responder. Nunca sei.
Também não sei se o peixe, no fundo do poço,
morderá a isca. Jamais mordeu.
Também não sei se o peixe, no fundo do poço,
morderá a isca. Jamais mordeu.
Ou se a batata estufará a terra prenha
e se libertará. Quase sempre não consegue.
Agora vejo meu pai sentado no sofá.
Agora vejo meu pai sentado no sofá.
Noventa anos. Uma carcaça que respira e fala.
Apenas isto. Os fundamentos da velhice são ruinosos e definitivos.
Mesmo assim, ele me parece que jamais será extinto.
Mesmo assim, ele me parece que jamais será extinto.
Não me lembro de tê-lo olhado com olhos de brandura
ou com acuidade carinhosa.
Ainda agora não me comovo diante de sua ruína física.
Descubro, de forma repentina, que a justiça
Descubro, de forma repentina, que a justiça
em sua real essência, existe.
É ministrada com exatidão pelo mundo
que tudo cobre, tudo corrige, nada perdoa
que tudo cobre, tudo corrige, nada perdoa
e o faz com todo o direito, pois foi sua lógica
quem inventou a injustiça.
quem inventou a injustiça.
Todos os dias laboro o caos da minha vida
que se faz inconsertável por não ser manobrável.
São estações de fúria e horror em iguais extremos.
Na verdade já não sou assistido pelas montanhas,
pelas árvores e nem as estrelas e as nuvens
São estações de fúria e horror em iguais extremos.
Na verdade já não sou assistido pelas montanhas,
pelas árvores e nem as estrelas e as nuvens
nada mais me segredam. Sei, contudo que o Paraíso
surge como um marco inicial e não como um ponto final.
Mas sinto que os anjos amaldiçoaram minhas escolhas,
mesmo aquelas do coração. O que resta?
surge como um marco inicial e não como um ponto final.
Mas sinto que os anjos amaldiçoaram minhas escolhas,
mesmo aquelas do coração. O que resta?
Respondo que devemos tentar, tentar sempre,
mesmo diante da angústia da morte. Não indefinida.
Faço assim, porque reconheço que tenho uma coragem pequena
porque também pequeno é o meu espírito.
porque também pequeno é o meu espírito.

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