Estes poemas foram escritos em uma fase da vida do meu pai de intensa atividade profissional. Ele trabalhava como superintendente da sede regional da ECT em Uberaba e à noite revisava um dos diários da cidade. Viajava quase todos os dias a serviço, pelas cidades da região, retornando no final da tarde. Da rodoviária ia para nossa casa tomar banho e jantar, antes de começar a segunda jornada, que ia das 19h à 01h. Vivia assim de segunda a sexta-feira, mas não sei como, encontrava tempo e ânimo para escrever.
Quando encontrei os primeiros originais digitados entre as escrituras da antiga casa onde morávamos, lembrei-me que ele trazia os versos escritos a mão, às vezes em guardanapos de papel das lanchonetes das cidades por onde passava.
Nunca sobrava dinheiro para pensar em uma publicação, até para participar dos concursos literários era difícil, porque não tinha tempo para organizar o material de acordo com as normas.
Não escreveu apenas estes poemas, reunidos sob o nome de retrospecto, mas milhares de páginas, primeiro manuscritas, depois datilografadas em uma máquina Olivetti portátil, de cor verde claro, que o acompanhou por algumas décadas. Foram contos, romances, crônicas e muitas poesias. Mostrou para alguns amigos, recebeu vários elogios, mas não conseguiu viabilizar a publicação.
Acredito que tenha persistido por ser um artista genuíno, um artesão da palavra, que sempre gostou de ler e escrever. O prazer maior sempre esteve no ato de criação. No exercício da imaginação e na tentativa de dominar a linguagem. Sempre cultivou um extenso vocabulário, ao qual acrescia todos os dias algumas palavras, com excepcional memória e facilidade de compreensão.
Hoje, mesmo debilitado pelo mal de Alzheimer, ainda menciona palavras incomuns, mesmo não se lembrando mais que um dia escreveu poesias. Quando nos encontramos e lhe disse que havia encontrado os originais de um de seus livros, ele me perguntou: - Mas eu já escrevi poesia?
Escreveu sim, são estas e algumas outras, que espero conseguir resgatar para este blog. Não sou critica literária, nem mesmo conheço bem a língua portuguesa, mas sinto que estes versos têm no mínimo o valor do esforço que os gerou. Sinto que são tristes, como triste muitas vezes é a condição humana. Como triste hoje é ver um homem tão ativo no passado não se lembrar que já escreveu poesias. Mas também são de renovação, de questionamento, de busca de um sentido mais profundo para o viver mesmo que tomado pelo cotidiano.
Enfim, conclui que o melhor a fazer com o achado seria isto que está agora diante de você leitor. Um lançamento direto pela internet, a grande invenção que está remodelando as relações humanas. Esta rede de comunicação pode até não ser o melhor caminho, mas permite o acesso a incontáveis informações, que podem mudar, senão o coletivo, pelo menos aqueles que querem evoluir e desenvolver como pessoas.
Suzy Mary de Almeida Leandro

