domingo, 2 de outubro de 2011

Estigma


Eu tenho uma vida antiga e profunda,
uma vida conivente, comovente vida
vida feita,
sem riquezas e glórias,
na mediana linha da mediocridade,
mas vida realizada.
Venci as ilusões, o acanhamento,
sobrevivi sem lisonjas exageradas.
De tudo o que possuí,
e não foi pouco e não foi muito,
apenas me restou um riacho,
ou melhor, um pedaço de águas correntes,
que chamei sempre de um rio.
Há coisas que parecem ser e não são,
mas se forem bem examinadas, será visto que são.
Um bravo riacho meio serpentuoso,
de margens esbarrancadas e altas,
de crebos murmúrios no entremeio de suas águas,
dando imagens quase transparentes,
com olhares verdes par o céu, esperançoso
de boas dádivas,
sem que nenhuma estiagem o ameace,
à espreita,
filho de todas estações, estações fugazes,
sorrateiras e fugitivas.
Suas águas me acariciavam nas margens da ventura
e me embalavam nos devaneios velados
durante tardes campesinas
longe das anamaimas implacáveis.
Recordando-me dele eu abarco toda a dor
de meus estigmas
.

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