domingo, 2 de outubro de 2011

Vento


(Um homem - hábitos talares - rodeado de meninos. Quando e onde eu o vi?)
Percorro as ruas sinuosas
deste berço
escoltado por montanhas
indivisíveis e sem recortes.
Terraços de madeira trabalhada
arco-cruzeiro diante da capela
erma. Toalhas de cassa, cálices sanguíneos.
As arquivoltas ornadas, altares com apliques de ouro, confessionário
em alto relevo
. Mezaninos e alfaias. Trompas circulares.
Caramanchões de pendentes louçaínhas.
Fachadas humildes
de casas
sem rosto
e sem reboco. Bestas carregadas escorregam
nas íngremes ladeiras
.
Negras de pernas finas
cabelos encaracolados,
balangandãs nos braços
gentis, graciosos;
pendantifes de prata
em pencas
dentes de criança e cobras
encastoados.
Artesãos à porta da fazenda
e o gado fedorento
encurralado aos
trambolhões.
Vitrines de turquesas, crisólitas
e esmeraldas.
Pouca fidalguia. Modos rudes.
Mantimentos no paiol.
Calçadas elevadas,
porões de pedras lajotadas
feitas a cinzel
.
Meus passos sobre placas de granito
róseo e remanchado demarcam minha determinação.
Tachos de cobre e alpendres irrorados
de pingos
dourados. Quem foram os artesãos?
De fora, as parasitas grossas, enramadas,
artelhadas nos troncos fortes,
as tranças finas da galharia
balançavam quase soltas.
Louro-amarelo, guirlandas
boiando em águas de garimpo,
peneiras à margem do cascalho,
  lousas de maçacote e tauxia;  
quartzo
jaspeado. Tapiocanga e barro.
Albombrado de gramas e pelúcias. Bules e paliteiros,
requintados gestos.
O pátio está vazio, cheio de estátuas barrocas. Coisas disformes.
Mulheres pardas e três véus brancos, roxos e verdes,
  dependurados no varal de bambu,                                     .
três palas de cores brancas, roxas e verdes.
Marfins indianos. Coisas banais.
(Deus não favorece. O demônio, sim.)
Sentinelas imóveis do nada,
nesses arraiais e arrebaldes.
Arcas emolduradas de faixas
prateadas e latão;
castiçais de apurada graça,
bacias de porcelana
e osculatórios debruados.
Côncavos rebordos
de portas entalhadas
. cortes de formão, lisuras de enxó.
Coretos rústicos, cruzeiro solitário.
Opalinas do passado.
Campos viçosos - primitivas construções -
(Às vezes, sinto que sou mesmo caiapó -
na irradiação lunar
dessas noites sem mercúrio.)
Enxovais - ilhotas nas sesmarias -
esteios forquilhados,
paus roliços encipoados
rodas rangentes,
sinos plangentes,
choças e palhadas
das misérias cultivadas durante séculos
errantes. Escravos enfeitados, correntes de ouro.
Muros disformes cercando prelazias.
Mandioca vassourinha,
espigas e peixes
defumados - cheiro álacre.
Tradição nenhuma. Grandes baixelas para nobres famílias.
(Jogos que só eu sei jogar. Mesmo quando o minuto pinga,
e o pensamento inunda
... )

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