domingo, 2 de outubro de 2011

Caminhada

Homens lastimosos, alquebrados,
filhos dos que morreram,
darão seu urro de dor,
seu tétrico queixume de ódio
fita nucal
peitos listrados
- filhos do desespero -
que no caminhar lírico
feneceram
vão empunhar suas bordunas
e voltar à luta
sem vitória.
Caras pintadas, corpos lacerados
tombarão, lenho e punhal,
no último levante.
Facão em punho
rápido e lancinante gesto de destruição.
Revejo as campestres
formas e os vilancetes
ebúrneos.
Folhas clavadas
e clavijas
chiadoras;
ao longo das escápulas
as meadas de aniagem
pendidas,
respingantes sobre taipas.
(Alho, sal, couro, cachaça e aço).
Caminho pela solidão dessas trilhas ermas.
Capim ralo, árvores frondosas,
o mundo todo um só campo
aberto - essas ermidas...
Relembro os punhados de maniçoba
na boca arfante
e a manicuera torrada,
todas as preias.
Nenhuma prolépse - canibal rapace,
gente rampeira,
gente nobre.
Veios de coragem, veios de destino.
No entremeio
desses arramalhados,
flechei bandeiras,
band
idos e colonos,
segregados anciãos
irmãos de raça e
irmãos de sangue.
E rasourei campinas
grutas e riachos
em cloacas infernais; - ossos brancos,
peles esgruvinhadas, cabelos sujos -
a minha ropina, a minha g
lória
a minha vitória.
Perpasso, no meu passo,
paredes caiadas e rasas,
pequenas torres bizantinas.
Estilo bizarro
e alvenaria simples,
misto Renascença.
Abobadilhas - caleches nos largos -
portadas em aboamento
abóbadas em arestas chapelinas
e sarapanel.
Laçarotes de embuia,
peitoril marmorizado.
Vileta, parte japonesa,
ablução das cornijas. Tiras de couros e vidros cônicos.
Ao invés de calhas, navetas.
Cimalhetes anti-estéticos,
cantochão de lajedo, chanfras e platibandas.
Ando. Címbalos e ampulhetas. Baquetas de tambor.
(Não relembro pessoas.
Alcaides, morgados, alféres.
As pessoas são voláteis.)
Tenho as mãos crispadas dos que saem do leito de Procusto.
Sou caiapó. Um ente imune dos males do mundo.
Caído no poço negro.
Vivo ao rés-do-chão.
Festival de cores e ritual
de dores não expressas...
A dor de viver, a dor de morrer
os sentimentos primevos chegando aos campos abertos
na alma.
Mundurukus de cantos místicos
engalanados de penas e pontas
afiadas.
Unguentos aromáticos e mulheres taciturnas sob a réstia de luz
na paliçada.
Braçadeiras dos bororós cravejadas de dentes.
Suntuosos wayanas-aparai
com placas às costas, plumas e penas.
Carajás robustos, leques à cabeça, pendoantes.
Araras, gaviões e jaburus nos cocares.
A adega pendida, o passo nu sobre o lajeado plano
crivado de flechas
.
E toucados mikranotis e xicrins,
a tradição plumista,
a arte plumária dos primários.
Urubus-kaapor requintados
em seus diademas tribais,
coroas kaxinawas de
leveza estrênua.
(De nada adianta a gente amar
se não se puder esperar ou realizar
o sonho).
A solitária solidão anônima nas vastidões,
coração sozinho
entre as montanhas estelares
além das ondas bravias
dos mares.
Os deuses?
Quem são os deuses?
Quantos são os deuses?
Para que existem os deuses?
Onde estão os deuses?
Eles são mudos
cegos
surdos
indiferentes.
Não nos querem bem
nem nos querem mal
.
Assistem.
Impassíveis, os deuses assistem.
Interrégnos, os deuses assistem
.
Dêem-me apenas a débil flama da coragem.
O rio sempre à espreita
ao largo
como um grande olho azul.
Entre os humanos seres existe
uma tênue relação de amor
transformada em
violência –
mas com os animais
esta relação revela um especial
carinho e maternal
ternura.
Eles coabitam o mesmo coração de inanes ramagens
e os diferentes aspectos
da vida grupal
e individual. E vivem sua monótona logística.
(A qualquer rumo do futuro,
a escala turva
da morte).
Fui reduzido a outra descoberta triste.
Rompido o círculo tanatológico
nada resta senão o vazio
desses verdes espaços.
Doce é a lembrança das tristezas idas -
rezou o grego há séculos,
em eras perdidas.
Sei que existem coisas
que eu acho que inexistem
e às vezes me pergunto
se são reais ou se são sonhos
fantásticos de minhas crenças
ou descrenças.
Não carrego o olhar magoado
nem a expressão macerada
de quem sofre por fatos
que outros corações lhe causam.
Até a morte faz crescer,
mas só o que é vida
realmente cresce.
Só o arrojo anula o medo
e por isto sempre fomos à guerra,
eterna pendência, eterna como a eterna
penúria dos campônios
.
As árvores fincavam sombras disformes
sobre o chão em que morremos
à margem do rio.
Quem se incomoda com um rio,
em seguir um rio?
Caiapó não entende o rio, ama o rio.
Caraíba etê, não conheci.

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