domingo, 2 de outubro de 2011

Extinção


Dependuradas cangas, encarquilhadas cargas,
afinadas sapatilhas,
telhas vãs, tetos de flandres
sem forro, poeira pura, monjolos,
tábuas largas e cravos
ressoantes, lamparinas, velhos teares
pau-a-pique, rústicas superfícies
e barro trançado em cipó fino, tendas estorricadas.
Achas de aroeira, esteiras de palha, cipós das pirambeiras,
cancelas giratórias, cataventos, moendas rangedoras.
(Nenhum de nós nasceu em manjedoura. E nunca chega o ansiado tempo
de descarte e de deslinde!)
(Nossa mãe de cócoras. Nenhuma abertura para a glória. Apenas o nascer.)
Sulcos de arado,
florestais os núcleos
para machados,
foices, cordas
e terçados.
Ando. Não ando, erro
pelas ermidas
deste tempo, nas várzeas
dos caminhos seculares.
Vagueio e danço. Batuques
carimbós e cateretês,
capoeira, maculelês,
maracatu e reisado.
Nas implicações mágicas dessa era
uma vertigem de ternura;
no espaço bidimensional
argonautas de uma nova ética,
oráculos do emergencial
.
Nem dogmatismo, nem esquematismo - um único golpe decepando séculos.
Logo seremos apenas sepulturas
envergonhadas do deserto
de si mesmas.
Parakanãs, jurunas e coxodoás;
caiabis e pacaiás,
cintas largas, nhambiquaras
craôs, tambés, crixás, gês
caiapós-merencórios mereuás.
Caminhamos penosamente para a morte
sob o "rush
" dos cometas
e o rancho escuro das estrelas
de movimentos fibrilares.
Embaixo, no chão verde marrom
rasgado de faixas asfálticas
nem um só índio vê o horizonte.
O que fazer diante de um índio
que morre?
(Esses infortúnios, com o decorrer dos dias, interessam-me cada vez
menos).

1 comentários:

Anônimo disse...

A poesia adensa para enfrentar a banalidade. Registros de um doce observador. Os caminhos, as terras longícuas e de seus povos...
Obrigada Warnar!
Marta Silva

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